29.01.2020

Eu tenho vida; Eu tenho saúde; Eu tenho família; Eu tenho amigos; Eu tenho um emprego; Eu tenho uma formação; Eu tenho sonhos; Eu tenho uma casa; Eu tenho comida;
O que eu não tenho é reação diante a minha vida.

As vezes eu paro e me pergunto:
– Será que sou ingrata por tudo o que tenho?

Na maioria dos dias acho que sim, nos outros também.

A minha vida é perfeita, eu não posso reclamar. Só Deus sabe o quanto já orei para ter tudo que eu tenho, e ainda assim, não estou feliz e satisfeita.

É quarta-feira à tarde, para ser mais precisa, são 16h.
Não fui trabalhar. Não fui treinar. Não me alimentei bem.
Estou aqui, no meu quarto bagunçado, de porta fechada, deitada na minha cama sem lençol, com as minhas cachorras e o quarto cheio de merda.

Reclamo que não tenho tempo para realizar as minhas atividades. Mas e esse tempo aqui?
De fato, eu não sou organizada, o que torna muito mais difícil realizar as minhas tarefas e muito mais fácil de procrastinar minhas obrigações. De fato, eu estou sem planos para a minha vida. De fato, eu quero fugir e recomeçar.

Acontece que recomeçar não é só ir para outro lugar e continuar a fazer o mesmo de sempre.
Recomeçar é aqui é agora. É fazer diferente. É mudar o que incomoda. É sair do lugar.
Só que sair do lugar dói, cansa e gasta energia. Eu já não tenho mais energia.

Eu quero uma nova vida, mas não sei por onde começar ou como começar (?)
Faço um plano. Monto uma rotina.
Preciso de uma agenda.
– Mais uma?
Eu já tenho duas e ambas estão em branco.
Eu sei que preciso de disciplina. Mas quando meu alarme toca, eu desligo, viro para o lado e volto a dormir.
Há dias que estou mais determinada a fazer melhor, então coloco no modo soneca acreditando que no próximo alarme sairei da cama. O celular desperta 500x e eu canso de acordar a cada 10 minutos, então ajusto o timer para 30 minutos.
Daqui duas horas eu consigo sair da cama.

Acordo tarde e decido que já não vale mais a pena viver esse dia, sempre digo que o dia só vale a pena se começar cedo.
A tarde chega e a crise de ansiedade está forte. Eu detesto estar aqui.
Por que estou aqui? Por que não sai para onde tinha que ir? Por que não peguei minha bike? Por que não levei minhas cachorras para passear como me comprometi no começo do ano?
Por que não fui trabalhar? Por que estou jogando no celular?

O telefone começa a tocar. É do trabalho. O coração acelera. Vão descobrir que sou uma fraude. Um gasto de dinheiro. Que não faço nada. Que estou aqui, deitada na minha cama sem lençol. Que vida…

Eu que escolhi essa vida.
Estou aqui por escolha, ninguém me obrigou.
Estou aqui não porque quero estar aqui. Eu não quero estar aqui. Por que é que estou aqui?

Deixe um comentário

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora